O Simbolismo como Linguagem Poética em José de Moraes Rego
A partir da década de 1970, a obra de José de Moraes Rego passa por uma
inflexão decisiva: o artista, até então reconhecido como pioneiro do
abstracionismo em Belém, inicia uma fase marcada por uma produção
profundamente simbólica, que alia a precisão formal a uma poética densa e
introspectiva.
Instantes Biológicos das Remotas Percepções – 1983
Miss Lugoff After Red Symphony Fashion – 1987
Essa transição, consolidada na exposição Retrospectiva folclórica (1976)
Revela o desejo de ir além da abstração pura, em direção a uma linguagem capaz de operar como metáfora visual — sensível e crítica, silenciosa e contundente. Rego começa então a construir imagens que evocam formas arquetípicas, rostos femininos, elementos do cotidiano transformados em signos, e símbolos extraídos do imaginário popular e espiritual amazônico, sem jamais se limitar ao regionalismo. Em sua própria concepção, o uso de signos locais jamais se destinava à reafirmação folclórica, mas à construção de mensagens com alcance universal. Para ele, o simbólico era a matéria da essência — uma forma de comunicação que transcende o lugar e o tempo. A série inédita As belas gravuras, apresentada pela primeira vez neste catálogo, é expressão madura dessa dimensão simbólica. Os rostos femininos, sintetizados em linhas e sombras, não retratam apenas figuras, mas estados de presença, memória e silêncio, capazes de suscitar reflexão e empatia. São imagens que falam ao inconsciente, carregadas de camadas de sentido — entre o visível e o espiritual. José de Moraes Rego entendia a arte como um campo de liberdade e transcendência. Para ele, a forma simbólica permitia tocar o que é comum e essencial à experiência humana. Ao afirmar: “Creio que é chegada a hora de vermo-nos como homens universais, talvez mesmo, cósmicos”, o artista deixa claro que sua obra nasce do local, mas não se encerra nele. Ao contrário, aponta para o amplo — e o eterno — no interior do gesto artístico.